O dado chama atenção: segundo levantamento recente do DataBrasil, cerca de 895 mil famílias brasileiras encerraram 2025 recebendo mais de um salário mínimo apenas com a soma de benefícios sociais. Em alguns casos, os valores ultrapassam com folga esse patamar — há famílias recebendo mais de R$ 2.786 mensais. O número, por si só, levanta um alerta sobre o desenho atual da política de transferência de renda no país.
O problema não está na existência dos programas sociais, mas nos incentivos que eles criam. Quando o benefício acumulado supera aquilo que muitos brasileiros conseguiriam no mercado formal, o resultado tende a ser um desestímulo ao trabalho e à formalização.
O estudo também identifica distorções importantes no acesso aos benefícios. Em alguns casos, há indícios de subdeclaração de renda — quando parte dos ganhos do domicílio não é informada — e até a omissão de vínculos familiares, como a não declaração de um cônjuge que vive na mesma casa. Na prática, isso permite que pessoas que compartilham a mesma renda sejam tratadas como unidades separadas pelo sistema, aumentando o valor total recebido em um único domicílio. Esse tipo de comportamento revela brechas no modelo atual e sugere que as regras, além de complexas, acabam incentivando estratégias para maximizar o benefício recebido.
Além disso, a forma como o sistema está estruturado cria um problema conhecido como “efeito degrau”. Como os critérios de elegibilidade são rígidos, um pequeno aumento na renda pode levar à perda total ou significativa do benefício. Isso faz com que o custo de ganhar mais seja, na prática, maior do que o ganho, desestimulando a progressão de renda.
Nesse contexto, algumas famílias passam a evitar formalizar um trabalho, reduzir horas trabalhadas, ou até omitir parte da renda para não ultrapassar o limite exigido. O resultado é um conjunto de incentivos que, em vez de estimular a autonomia, acabam favorecendo a permanência no programa.
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