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Sabado, 18 de Abril de 2026

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Conectados e Isolados. Os desafios de criar filhos na era digital

Criar filhos na era digital é vê-los manusearem celulares com facilidade, mas não sabem amarrar os próprios sapatos

Conectados e Isolados. Os desafios de criar filhos na era digital
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Se tem uma ferramenta que a inovação tecnológica não nos ensinou, ao menos por enquanto, é como criar filhos na era digital. Todos os dias, milhares de pais e mães buscam nos consultórios de psicólogos e psicopedagogos uma orientação em como lidar e encontrar um equilibro na relação dos filhos com o mundo conectado. Quantas horas por dia é normal ficar conectado, somado o celular, computador, tablets e vídeo games? As associações mundiais e pesquisadores divergem sobre o tema. Associações Americanas defendem o uso limitado a um adolescente até 12 anos de apenas duas horas por dia. Porém,  possível?

E esse conflito na hora de educar faz todo sentido, já que a geração dos pais é extremamente diferente. É a geração da descoberta presencial, conquistada através da pesquisa, no correr atrás de uma informação, de saber esperar por algo, e principalmente, baseada no relacionamento humano.

E quando o mundo smart começa a ter mais importância do que a relação do individuo com o mundo e aprendizados essências se perdem no tempo, é sinal que algo precisa ser revisto, como indica uma pesquisa realizada pela AVG Technologies.

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Dados da pesquisa mundial realizada em 2018, apontam que 66% das crianças entre 3 e 5 anos de idade conseguiam usar jogos de computador, 47% sabiam como usar um smartphone, mas apenas 14% eram capaz de amarrar os sapatos sozinha. No caso das crianças brasileiras, o levantamento revela que 97% das crianças entre 6 a 9 anos usam a internet e 54% têm perfil no Facebook.

Embora ainda não haja consenso entre os especialistas, muitos apontam consequências sombrias do contato excessivo das crianças com as novas tecnologias. Segundo a psicopedagoga, Nathalia Ribeiro, de Volta Redonda, atualmente, 90% da procura em seu consultório é ocasionada por alguma dificuldade em lidar com o meio digital.

“Naturalmente essa geração chamada Y é mais antenada, conectada e é preciso impor limites, estabelecer uma rotina, para que o uso seja produtivo e saudável. Mas, hoje temos um grande desafio que é fazer a família vivenciar juntas as experiências do dia a dia. É importante sentar na hora do almoço ou jantar, sem o celular, e mostrar interesse na vida da criança, como foi o dia, o que fez na escola. Em muitos casos o pai e a mãe trabalham fora o dia todo, os filhos ficam com a babá, empregada ou se já são maiores, ficam sozinhos. É neste momento, onde a tecnologia acaba suprindo a necessidade de interagir e não se sentir sozinho.”, explica Nathalia Ribeiro. 

Para a Psicopedagoga, além de limites também é muito importante para os pais darem o exemplo sobre o uso tecnológico, principalmente com o celular. O uso excessivo dos pais, mesmo dentro de casa, acaba refletindo nos filhos e  pode trazer consequências para o desenvolvimento cognitivo e social, além para a saúde da criança.

“Nós como pais, temos falhado nesse sentido demonstrando uma certa dificuldade em conseguir controlar o uso do celular. É importante o pai e a mãe, que acredita que o filho faz um uso excessivo do celular e está se prejudicando, se perguntar se ele também não está exagerando. Em muitos casos, a culpa não é da criança, é do adulto. Eles nos tem como exemplo”, relata.

 E o exemplo ou a falta dele ilustra bem o que acontece na casa de Eduarda Lemos. Com apenas de 23 anos e uma filha de dois, ela explica que a criança sempre chora para ver vídeos no celular.

“Ela sempre larga o brinquedo quando em vê com o celular na mão. Pede pra ver vídeo, desenhos, até mesmo os mesmos desenhos que ela já vê na televisão. Tenho ciência de que tenho culpa, por usar sempre perto dela, enquanto ela brincava. Era uma distração pra mim, como se fosse um descanso entre uma tarefa e outra. Agora preciso me policiar no uso, pra que ela também pare de pedir meu celular a toda hora”, confidencia e estudante de direito.  

Facilidades x Dificuldades

Com as facilidades ocasionadas pelo mundo tecnológico, tudo ficou mais fácil. Se antigamente os meninos tinham que alugar uma fita de vídeo game no sábado e ficar com ela até segunda-feira, gostando ou não do jogo, hoje a criança tem milhares de títulos a disposição no Google Play, games portáteis e afins. As pesquisas escolares ficaram mais ágeis, tornando praticamente obsoleta aquela visita a biblioteca, onde era necessário pesquisar dezenas de livros até encontrar o assunto tratado. E o dicionário? As crianças tem. Está na lista escolar todos os anos. Mas, o Google “ensina” a tradução ou a escrever corretamente. 

Tudo isso realmente agiliza e facilita o dia a dia das crianças e adolescentes. No entanto, torna o processo superficial, não demonstrando o valor e o aprendizado necessário em cada uma dessas ações, como no exemplo em aprender a amarrar o cadarço, dado pela pesquisa.

“As crianças são muito espertas e assimilam tudo muito rápido. Mas, ao inverter valores e só ter contato com o mundo digital, ela perde oportunidades de aprendizado. No simples ato de aprender a amarrar o cadarço, a criança aprende a exercitar a coordenação motora, a replicar a estratégia ensinada e é obrigada a pensar. Essa ação, o pensar, está sendo deixado de lado atualmente. Com isso, e com a falta de tantas outras brincadeiras, jogos de tabuleiro, ouvir histórias dos pais e momentos em família, a criança deixa de exercitar sua capacidade criativa, fica impaciente, pois tudo que ela acostumou a fazer é rápido, como mudar um vídeo no Youtube”, explica Nathalia que também atua como professora coordenadora pedagógica.

E nessa busca pelo equilíbrio entre o social x digital é preciso ficar atento aos sinais que os filhos apresentam, principalmente com as crianças menores. Jogos macabros como o da Baleia Azul e os vídeos da Mômo, escondidos em meio a desenhos inofensivos no Youtube, tem assustado os pais e podem ocasionar em tragédias, como casos que aconteceram neste ano no país.

Para Nathalia, o grande desafio para os pais, e talvez o segredo para diminuir os efeitos colaterais do uso tecnológico é a união de pais e filhos.  

“É importante o diálogo. Por mais que você trabalhe, que dê duro durante o dia, é preciso separar um tempo para passar em família. Hoje temos muitas crianças que não sabem andar de bicicleta, não frequentam praças e andam no balanço. Algumas perguntas que fazemos a nós mesmos, nos ajudam a saber se estamos no caminho certo. Que tipo de criação você deseja pro seu filho? Que adulto você imagina que seu filho irá se transformar? Você conhece o seu filho o suficiente? Não fique só na bronca com os erros que comete. Vibre com as coisas que ele faz, participe, elogie também”, finaliza Nathalia, que após a entrevista em seu Estúdio Educacional, atendeu aos pedidos do filho e marido para se juntar em um momento de folga.

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