Valença
Enquanto os escritórios refrigerados da capital discutem metas de sustentabilidade, o produtor rural de Valença assiste, impotente, ao fruto de seu trabalho escorrer pelo ralo. O cenário na região Sul Fluminense historicamente o coração leiteiro do Rio de Janeiro, cruzou a linha do aceitável. Não estamos falando apenas de "falta de luz"; estamos falando de um atentado contra a segurança alimentar e a viabilidade econômica do campo.
A Anatomia do Prejuízo
Para um produtor de leite, a energia elétrica é tão vital quanto a pastagem. Sem ela, o resfriador para. Entre 2 a 3 horas após a ordenha, a carga bacteriana do leite cru dispara, tornando o produto impróprio para a indústria. Dados recentes de 2025 e início de 2026 mostram que a pecuária leiteira já opera com margens estranguladas: os preços pagos ao produtor acumularam quedas reais superiores a 20% no último ano, enquanto os custos de insumos, como o milho, seguem voláteis.
Quando a Light falha na entrega de um serviço básico, ela não apenas "apaga a lâmpada".
Ela:
- Inviabiliza a Ordenha: Sistemas mecanizados param, causando estresse e mastite nas vacas.
- Descarta a Produção: Em episódios recentes na região, produtores perderam centenas de litros por dia.Multiplique isso pelo valor da praça e terá o tamanho do rombo.
- Destrói a Genética: O estresse térmico e a quebra do manejo afetam o ciclo reprodutivo e a produtividade a longo prazo.
Uma Análise Crítica do Mercado Regional
O Sul Fluminense enfrenta um dilema estrutural. Na pecuária de corte, a região ainda resiste com o ciclo de cria e recria, mas a pecuária leiteira está em "modo defensivo". O mercado nacional de lácteos em 2026 exige escala e eficiência extrema para sobreviver às importações do Mercosul. Como exigir eficiência do produtor valenciano se a infraestrutura elétrica parece ter parado na década de 80?
E agora com o aumento do dia 18 de março de 2026, cerca de 14,58% para residências e indústrias/Grandes Empresas a alta pode chegar a 21,35%, informa segundo dados iniciais citados no (Enfoco).
É um contrassenso econômico. O agronegócio é o setor que segura o PIB no Brasil e no estado do Rio de Janeiro ele representa 32 Bilhões, mas em Valença, o produtor é tratado como cliente de segunda classe. O descaso da concessionária gera um efeito dominó: menos dinheiro no bolso do produtor significa menos comércio girando na cidade e menos empregos no campo.
No campo político no município, o Secretário de Desenvolvimento Econômico de Valença, Haroldo Filho, eleva o tom, cobrando respostas concretas da concessionária de energia. Com décadas de trabalho na iniciativa privada, ele entende que gargálos como este pode zerar a margem de lucro e decretar o fim de um empreendimento.
O Grito de Quem Alimenta
"Modernizar a pecuária em Valença é um desafio: só no último ano, 45 quedas de energia comprometeram a vacinação e a inseminação artificial. No campo, a instabilidade elétrica não apenas atrasa o trabalho, mas destrói o planejamento e gera prejuízos reais." - Paola Péclat - Produtora Rural /Rancho Novo Valença
"Equipamentos de produção, conservação de produtos, medicamentos humanos e veterinários, comunicação, tudo depende de energia e a concessionária não tem dado conta de atender as emergências que se multiplicam a cada dia pela falta de manutenção preventiva / corretiva." - Marcos Aurélio- Produtor Rural de Stª Isabel Valença-RJ
Não podemos aceitar que o "custo Rio" inclua o desperdício de alimento por incompetência logística e energética.
Podemos e devemos ter projetos de lei que preveem o ressarcimento por perdas de perecíveis é um avanço, mas o produtor não quer indenização; ele quer produzir.
A solução exige pressão política e investimentos reais em redes rurais protegidas e automação. Até lá, o leite perdido em Valença continuará sendo o símbolo mais triste do descaso com quem acorda às 4 da manhã para alimentar esse país.
Por: John Wayne Eng° Especialista em Gestão de Agronegócio e formando em Medicina Veterinária
Comentários: